08 set 2018

De onde vem a criatividade?

Algumas pessoas pensam que a criatividade é um talento nato, Elas dizem: “você, que é criativo, poderia trazer ideias inovadoras para nós, que não temos toda essa criatividade”. Bem, apesar de algumas vezes ser catalogado no rol das pessoas criativas, essa definitivamente não é uma afirmação muito coerente.

Talvez a minha história me ajude a ter essa convicção. Afinal, sempre estudei em colégios caretas e tradicionais e entrei para a faculdade de economia. Comecei trabalhando em um instituto de estatística, depois áreas de planejamento, inteligência de mercado e vendas em uma grande multinacional. Nada aparentemente muito criativo. Em seguida passei pela gerência de marcas e finalmente cheguei ao mundo das agências, muito mais pela minha habilidade comercial do que qualquer outra coisa.

O fato é que, tirando alguns talentos realmente fora da curva, as pessoas em geral não nascem com um dom especial da criatividade. A verdade é que a fagulha de criatividade está sempre presente dentro de cada um de nós, e precisa ser oxigenada adequadamente para se tornar uma chama forte e luminosa.

Isso nos leva a seguinte questão: o primeiro passo para quem quer ser criativo é o comprometimento em querer sê-lo. Se, em nossa cabeça, seguimos dizendo que “criatividade não é pra mim, é para pessoas criativas”, então realmente não vamos sair do mesmo lugar.

Para muito isso não é nada mal. Afinal, talvez essa seja a melhor zona de conforto, não é mesmo? Se eu já me rotulo como um ser “não-criativo”, automaticamente eu passo a justificar essa questão para mim e para os outros, e não preciso realmente provar nada para ninguém, nem para mim mesmo. Ah…quanto alívio!

Mas, se eu entendo que a criatividade pode fazer a diferença em minha vida pessoal e profissional, então mãos a obra! Afinal, ela não é um dom especial, e todos nós podemos, afinal, ser criativos e inovadores.  

Em resumo, a criatividade nem é algo natural, que apenas nasce conosco e flui sem o menor esforço, e nem é algo impossível e extremamente sofrível de se atingir. Mas dá trabalho e exige força de vontade.

A criatividade é composta por diversos fatores. Alguns vêm de muito tempo atrás, como a confiança em si mesmo, que pode ter surgido quando você era incentivado e elogiado pelos seus pais e seus professores, ou na medida em que você conquistava os pequenos grandes sucessos em sua infância. Outros são fatores ligados ao seu conhecimento, ao momento atual e ao contexto em que está inserido.  

Aqui faço um parêntese para abordar outra questão. Considero que a timidez não tem relação com o fato de uma pessoa desenvolver ou não suas habilidades criativas. É claro que a timidez pode afetar a expressão dessa criatividade, e talvez uma maior dificuldade em colocá-la para fora em certas circunstâncias e de certas formas. Mas isso não quer dizer que os tímidos não possam ser criativos. A história está repleta de escritores e atores tímidos que expressaram sua criatividade através de livros e filmes, por exemplo.

Voltando aos fatores da criatividade, considero que eles são potencialmente ilimitados, mas vou me atrever aqui a fatiar esse “fator criatividade” em alguns poucos elementos que considero relevantes, sendo uma boa parte deles fatores que podem ser conscientemente desenvolvidos.

Segundo pesquisadores da psicologia positiva como Martin Seligman e Sonja Lyubomirsky a fórmula da felicidade é 50% fatores genéticos, 10% circunstâncias de vida e 40% atitudes intencionais. Mas em relação à criatividade, deixo para cada um a definição do peso de seus elementos, até mesmo porque certamente eles variam – e muito – de pessoa para pessoa.

Deixando de lado questões genéticas, o primeiro elemento que influencia na criatividade é a formação de cada pessoa. Sua educação social e cultural.

Algumas pessoas são incentivadas a tentar o novo, a opinarem sobre os assuntos, a não ter vergonha de suas opiniões. Isso acontece desde a infância e começa a se solidificar na adolescência, e vai ajudar a moldar sua abertura para apresentar novas ideias e criações. A criatividade, enfim, exige um certo grau de coragem, uma vez que algo criativo e por isso mesmo diferente do usual sempre gera críticas – positivas ou negativas – e comentários.

A autoestima, portanto é outro fator importante para a criatividade, que por um lado é construído ao longo da vida, e por outro é relacionado a cada momento. Como assim? Bem, eu posso ser uma pessoa com uma auto-estima elevada e talvez esteja passando por um momento de baixa-estima e vice-versa. A vida definitivamente não se escreve de forma linear. Desta forma, é claro que as pessoas possuem níveis diferentes de criatividade em diferentes momentos. Ou seja, em algumas ocasiões as pessoas estão mais propensas a serem criativas do que em outras.

 

E aí chegamos a mais um ponto importante: o contexto em que cada um está inserido. Pessoas sob pressão até podem ser criativas, e na verdade muitas vezes alguma pressão de tempo faz as coisas fluírem mais pragmaticamente, inclusive a criatividade. Mas para isso, elas precisam estar acostumadas com essa pressão. Dependendo da pessoa, uma pressão exagerada do seu ambiente externo pode provocar brancos na criatividade e total desorientação.

Em linhas gerais, ambientes e momentos mais descontraídos levam a uma maior criatividade. Não é para menos que muitas vezes um insight vem à tona quando você para de pensar no problema e muitas vezes se encontra em locais bastante inusitados, sem relação alguma com seu trabalho. Aquela nova ideia que você buscou ao longo de todo o dia muitas vezes surge do nada ao relaxar tomando um banho, em um momento de lazer ou mesmo ao acordar e recordar um sonho. Mas, certamente, a probabilidade de tê-las será bem maior se você estiver dentro de certos contextos do que em outros.

Por exemplo, um empreendedor está focado no lançamento de um novo produto. Ele passou as últimas semanas estudando a concorrência, analisando dados, conversando sobre o assunto. Este empreendedor, ao chegar a sua casa e relaxar, terá uma probabilidade de um insight relacionado a este lançamento bem maior do que se estivesse passado os últimos dias trabalhando em questões contábeis da sua empresa, sem pensar e estudar sobre o assunto.

Assim como é necessário juntar fatos, informações e habilidades para que uma solução de um problema saia com maior naturalidade, o mesmo ocorre com a criatividade.

Em uma agência, estamos a cada momento pensando em soluções criativas para nossos clientes e temos a vantagem de podermos envolver diversas pessoas para a  troca de ideias. Mas, sem fazermos um levantamento prévio de informações e sem termos processos que reúnam as habilidades de cada um em torno do tema, não teríamos muito como ser criativos. Ou seja, sem conhecimento e sem esforço não existe criatividade. Ela não vem do nada. A criatividade até pode parecer vir á tona como mágica, mas na verdade ela só tem esse ar de naturalidade quando reunimos e trocamos informações das mais diversas e quando damos a ela um tempo para sua maturação.

Quando falo em informações, não estou apenas me referindo àquelas estritamente relacionadas a uma questão específica. De fato, elas são importantes, mas não bastam. Na verdade, quanto mais estivermos abertos a experiências e troca de informações – com viagens, leituras, conversas, eventos, cursos ou experiências no trabalho – mais referências teremos para serem usadas no momento em que nossa mente for desafiada para tal. Quanto mais informado, mais criativo você será.  

 

Todo o histórico de experiências de vida e de soluções criativas que nos deparamos ao longo do tempo são estoques de munição para nossa criatividade. Alguns juntam mais munições do que outros ao longo do caminho. A criatividade não é uma linha reta. Assim como uma planta cresce melhor em um solo rico de minerais, e criatividade vem mais facilmente de mentes ricas em histórias, experiências, informações e referências das mais diversas (históricas, culturais, artísticas e empreendedoras).

Isso nos leva a seguinte questão: nós certamente somos mais criativos quando estamos nos relacionando com assuntos do nosso interesse, assuntos que vivenciamos  e que dominamos com maior naturalmente. De fato, quando estamos trabalhando com coisas que gostamos, estamos mais propensos a nos concentrar nelas, e a entrar em um estado tal que as ideias vem com mais clareza à sua mente, e tudo parece fluir com mais facilidade e qualidade. Inclusive, as ideias criativas e inovadoras.

Por isso, se quer ser criativo, comece fazendo o que gosta e o que tem interesse. Isso lhe dará maior prazer, e você certamente terá uma vida mais criativa. Mas, para ser criativo, é preciso definitivamente suar a camisa. E para fazer isso de forma constante e prazerosa, você precisa ter interesse pelo está fazendo. Sem nenhuma mágica, você vai ver que o criativo é você.